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Meditação

Esvaziar a mente é um feito. Uma façanha difícil de alcançar. Se tento meditar, começo a divagar.  Não tenho controlo sobre os meus pensamentos. Rapidamente chegam os lamentos, invasores sem consentimento. Eu respiro e tento ver a respiração. 1,2, inspira e expira; 3,4 amanhã é outro dia; 5,6 queria escrever poesia; 7,8 lá se foi a concentração, perdi-me na questão.

Quando o amanhã é igual a ontem

Quando o amanhã é igual a ontem Deixo de importar Não consigo criar Morre a paixão Desvanece a canção Quando o amanhã é igual a ontem Hoje não existe O nada persiste Em estado atónico Num mundo atómico Quando o amanhã é igual a ontem Deixo de ser Só consigo ter Continuo a respirar Mas não sinto o ar

A neve foi embora

A neve foi embora, derreteu. Transformou-se no que já foi. A cidade outrora vestida de branco, agora traja cinzento e volta a ser o que era. A felicidade caiu dos céus apenas para nos lembrar que há sonhos feitos de memórias.

Até sempre país das maravilhas frias

Há dias tão bonitos que quero que fiquem comigo. Mas se os conseguisse guardar, não perderiam o seu encanto? Como flores, depois de cortadas. O céu está azul rosado, pintado a cores pastel. Tudo à minha volta está gelado, congelado na memória. Sinto uma felicidade imensa - ao que parece, ela perdoou-me e conseguiu voltar. Que bonito é viver e descobrir; conhecer gente que me faz sorrir. Que bonito é hoje. É o dia perfeito para partir. Até sempre país das maravilhas frias.

Finjo

Finjo ser quem não sou Para puder ser quem quero ser. Porque quem quero ser e o que sou, Só se encontram quando minto.

Perdoa-me, Felicidade

Quando a Felicidade passou. Foi-se embora, levada por uma onda sonora. Vai inundar outra existência. É que, como todas as coisas, (Porque é isso que ela é, uma coisa, Um objeto concreto.  Quem diz o contrário, é porque nunca a viu. Eu já a vi. E se a vejo é porque é.) a Felicidade não consegue estar ao mesmo tempo, em todo o lado. Quando está por aqui, esqueço-me dela. Mas se vai embora, consigo vê-la ao longe, noutra vida. E logo me arrependo de não lhe ter dado a devida atenção. É o que dá, não reparar nas coisas importantes. Estava tão concentrada em trivialidades (como o que fazer amanhã), que me esqueci de lhe dar o melhor de mim. Ela dá-me sempre o melhor de si. Espero que não a tenha magoado. Espero que volte em breve. Tenho medo que um dia se canse e que não queira voltar. Espero que esse dia não seja hoje. Perdoa-me, Felicidade.

A ausência trouxe incoerência

A ausência trouxe incoerência. Sinto-me só. E que adianta rodear-me de gente, se nenhuma gente és tu? Falta poesia, Uma música a passar. Ficou tudo quieto, distante e constante. E as casas e as ruas, as árvores e o céu, levam-me no tempo, de volta ao que já foi. Quando mudar, e mudar de casas e de ruas e de árvores e de céu, vou voltar a ouvir uma música. Uma música diferente. Mas a nossa vai continuar a tocar, algures nestes recantos. E se um dia voltarmos, o tempo vai voltar connosco.

Vem aí a chuva

Vem aí a chuva. E trás os trovões. Tenho saudades da tempestade, Tenho saudades de ti. E ao ouvi-la, Ao sentir a sua força, Questiono-me da minha. Na impossibilidade de dizer, fico a pensar no que diria. Eu quero parar. Destruir esta sensação. Mas eu não sou tempestade, Ou tampouco um trovão. A minha vontade Não é forte o bastante Para parar a saudade.

O tempo

O tempo, hoje veio lento. Consigo tocá-lo, e consigo ouvi-lo: tic-tac, tic-tac. Segundos sem pressa que passam por mim. Vêm disfarçados, escondidos entre chilreares e brisas ou movimentos preguiçosos. Ainda assim, sinto-os. Sinto-os a ir na direção em que o tempo tem de ir. Há quem diga que é para a frente. Há quem ache que vai para o futuro. Eu não suponho, não assumo o seu destino. Só o tempo sabe para onde o tempo tem de ir. A mim resta-me vê-lo passar, nos dias em que me deixa... Há dias que corre, que decide fugir. Não o consigo tocar, e por mais que o queira agarrar, já passou. Ontem foi um desses dias. Ontem não o vi passar.

O Sol foi embora

O Sol foi embora. E as nuvens no horizonte capturam a última luz do dia. Ainda não vejo a Lua, mas espero que não se atrase. Há noites em que não aparece (suponho que fique a dormir....) Mas agora ainda não é noite a já não é dia. É a hora de ninguém, sem guia ou vigia. É uma hora bonita, é uma hora perigosa. Não é nada, mas é tudo. É um estado difuso e confuso entre o ser uma coisa e depois ser outra. É a hora de mudar. E como não é definida, não tem limites nem chefia, é a hora da liberdade, da rebeldia, da ousadia. O Sol foi embora e a Lua, a Lua ainda não chegou.

Gotas de sal

Gotas de sal Enchem o ar, Cheiram a força Sabem a mar. Eu queria ser como a água, Como a água do mar, Não ter forma nem sonhos E ser capaz de voar. Voar com o vento, Voar pelo ar, Correr pelo mundo Sem medo de errar. Não sei porque voa a água. Ainda bem que o faz. Que refresque a terra, que nos encha de paz.

Presa numa rede de ideias

Presa numa rede de ideias, Só me saem coisas feias. Não consigo ver além. Não consigo ser alguém Mais do já sou. Maior do que eu, Melhor do que serei. É um jogo viciado, O dado foi lançado. Sou profeta de uma fortuna Desventurada, Em que a descrença Torna-se uma sentença.

A insanidade é uma amiga

Uma mulher sã, Perdida e esquecida. Deixada num mundo avariado, embriagado de uma toxina citadina. A rotina viciante. A sinfonia alucinante. Ela transforma-se e deforma-se. A estupidez envolve a lucidez. Dá vez à loucura momentânea, À demência instantânea. Quem sou eu para julgar? Quem és para culpar? Numa sociedade partida, A insanidade é uma amiga.

Poesia d'algibeira

Poesia d'algibeira Escrita e cantada Sob uma brisa ligeira. Raios de luz Espreitam e deleitam Por entre nuvens Carregadas, cinzentas e pesadas. Tempo de possibilidade: Onde a tempestade é tão real Como a bonança primaveril. A chuva, o sol, o vento, Um arco-íris de felicidade. O despertar da vida, O respirar da saudade. As folhas dançam, Soltando gotas de magia. Um botão cresce, Floresce, num berma esquecida. É tempo. É tempo de renascer, É tempo de viver.

Névoa

A névoa distante Que se aproxima, Aprochega, fulminante. E o silêncio Ensurdecedor Dá asos à voz Feita d'amor. Quem és tu?   Quem sou eu? É tudo amargo Em teu redor. A lentidão Em palavras declamadas. A imensidão De silabas aglomeradas. Extasiada… Depois do tudo Vem o ser nada. Como é possível Sentir o mundo E o intangível? Estas palavras Cor-de-burro, São sentinelas Cor-de-musgo. Quem és tu Quando eu não sou? Quem sou eu Quando não estou? Faço rimas absurdas. Digito ideias sem sentido… Crio realidades fictícias Num mundo Onde a verdade É uma mentira.

XLII

Quero ser tudo, Vivo no futuro. Acabo a ser nada, Numa vida passada. Se conseguisse parar, Deixar de pensar, Seria feliz? Se voltasse no tempo, E vivesse o momento, Faria o que fiz? Perguntas desnecessárias, Ideias cansadas.

Dois copos de tinto

Dois copos de tinto cintilam, oscilam, até que colidem. Dois corpos de absinto atraem, contraem, até que vacilam. Não há mais nada a fazer. Não há nada a dizer. Segura   a frágil figura. Larga tal vida amarga. Insanidade mental, intensidade carnal. Deixa sair, deixa sentir. Mas… Não ames além do amor que tens pelo teu interior. Nunca te esqueças tu, és a única que vai te segurar. Quem mais que o teu reflexo estará disposto a t’amar? Ninguém que te veja a alma é capaz de compreender tal coisa escurecida, contorcida, entorpecida. É impossível saber que um sorriso radioso espelha este pequeno demónio silencioso.

Neurónios danados

Devia dormir, parar de sentir. Mas não consigo calar aquela voz infernal, que não sabe ir embora. Hiper-atividade cerebral oscila, vacila,   navega entre o que já foi e o “agora”. É hora   de apagar. Neurónios danados, que na hora de descansar ficam todos excitados. E eu viro neurótica, Rebolando, bufando… (E depois há quem se queixe que me apeteça gritar.) Não dá para deixar de pensar. Não consigo não imaginar   “ses”: Se fizesse, se não tivesse feito. Se quisesse, se houvesse efeito. Raio de possibilidades, um mundo de probabilidades. Como posso fazer tudo, acabo por não fazer nada.

Palavras difíceis

Por favor ofereçam-me um dicionário. Preciso de vocabulário. Preciso de mais palavras. (E se as virar ao contrário?) Quero sílabas complicadas, E soar mais imponente. Quero brincar com as letras, Ser mais eloquente. Estou a ficar repetitiva, Usando as mesmas rimas. Sou refém das mesmas frases. Só exporto ideias primas. Parece que não há fases, Que não consigo crescer. O meu cerebro é circular, Volta sempre ao mesmo lugar. Quero sair desta prisão, Sou vítima da criação. Se criar uma vez, crio essa vez para sempre? Não aceito. Não aceito tal logro da mente. Vou ler o dicionário. Vou encontrar palavras escondidas. Vou às famílias misteriosas, Em páginas incompreendidas. (Afinal não somos apenas palavras difíceis?)

Intensidade

Intensidade: Não consigo ser metade. (Ou tudo; ou nada) E se é para ser, Que seja verdade. Não tenho meias-medidas, Não penso em contrapartidas. Não meço consequências, Não gosto de reticências. (Ou tudo; ou nada) Se é para fazer, Que faça na hora, Se é para sentir, Que sinta agora. Intensidade: Sou anti-banalidade. Ou salto ou nem tento. Ou deixo a alma, Ou não experimento. (Poderá seguir-se o  arrependimento. Reparem: quando se salta sem medir a altura, É expectável que se sinta amargura. Mas a existência da possibilidade, De um ínfimo instante de felicidade, Faz-me esquecer o sofrimento. A probabilidade futura, continua fechada numa gaveta segura. O arrependimento ficará, por isso,  Guardado  para outro momento)