Coletânea de palavras escritas, que se transformam numa espécie de prosa poética ou poesia prosaica, como resultado de turbilhão de pensamentos aleatórios.
Quando o amanhã é igual a ontem Deixo de importar Não consigo criar Morre a paixão Desvanece a canção Quando o amanhã é igual a ontem Hoje não existe O nada persiste Em estado atónico Num mundo atómico Quando o amanhã é igual a ontem Deixo de ser Só consigo ter Continuo a respirar Mas não sinto o ar
Hoje ouvi uma expressão estranha. O estranho, o anormal, o esquisito são portadores de uma beleza diferente. Uma beleza inestética, desproporcional e assimétrica. Fumar o tempo, disseram-me. Há conversas que são como fumar o tempo. Em que o mundo se transforma num nevoeiro distante, uma névoa branca indiferente. E estás tão concentrado nas palavras que o tempo para, os problemas são figuras distantes e absorves cada gesto e cada som. Como se fossem objetos concretos, capazes de serem fumados.
O tempo, hoje veio lento. Consigo tocá-lo, e consigo ouvi-lo: tic-tac, tic-tac. Segundos sem pressa que passam por mim. Vêm disfarçados, escondidos entre chilreares e brisas ou movimentos preguiçosos. Ainda assim, sinto-os. Sinto-os a ir na direção em que o tempo tem de ir. Há quem diga que é para a frente. Há quem ache que vai para o futuro. Eu não suponho, não assumo o seu destino. Só o tempo sabe para onde o tempo tem de ir. A mim resta-me vê-lo passar, nos dias em que me deixa... Há dias que corre, que decide fugir. Não o consigo tocar, e por mais que o queira agarrar, já passou. Ontem foi um desses dias. Ontem não o vi passar.
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