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Há espera do sol

  Há espera do sol. O gigante de Fogo anuncia a sua chegada. A Terra ganha formas e cores, revelam-se texturas e vestígios do que já foi. As nuvens rosadas, junto uma terra de outra gente, já o vêem. Até lá, um mar de areia preguiçoso move-se discretamente. O paço é lento, invisível para olhos pequenos. Desconfio que seja  envergonhado. As dunas são ondas sábias e o deserto é o mar do passado que, quando iluminado, conta histórias a quem presta atenção.   Há espera da luz. As primeiras partículas anunciam a sua chegada. A Terra ganha formas e cores, revelam-se texturas e vestígios do que já foi. As nuvens rosadas, junto uma terra de outra gente, já a vêem. Por cá, uma colina de pedras preguiçosas movem-se discretamente. O paço é lento, invisível para olhos pequenos. Ainda assim, reconhece-se a afluência do tempo. As ruínas são silhuetas sábias, são traços do passado que, quando iluminadas, contam histórias a quem presta atenção.
 POREM, NO ENTUDO, CONTANTO

A saia vermelha

Ainda nem passou um mês e já está de volta, esta ânsia de sentir. De saia arregaçada e ventre revolto, mergulho os pés - talvez a essência - em água doce. A saia. É apropriada ao momento: vermelha cor-de-sangue manchada de pequenas flores brancas.  Passa uma brisa pelo corpo que me arrepia os braços. A caneta também. A página vira, dando a entender, de forma subtil, que é hora de seguir. Ainda assim, continuo aqui. Levantar-me significa encarar a pergunta: para onde quero ir?

tédio desenhado

Que parvoíce, desenhar... Que parvoíce ainda maior desenhar espelhado. A esquerda está à direita e os ângulos todos trocados. O mundo está virado ao contrário! As palavras também. Que se foda a realidade! Que aborrecido, desenhar o que já existe... Ainda mais chato é pensar em como a sua existência existe. (São as palavras que me salvam de mim)

A menina que não sabia amar

  A menina que não sabia amar, via corações em todo o lado. Apaixonava-se pelo céu, sempre que olhava para ele. Apaixonava-se tão intensamente, tão rapidamente, que ninguém acreditava que era amor. Um dia, ela também deixou de acreditar. Se calhar nunca tinha, de facto, amado. Parecia-lhe uma ideia absurda: ela que amava tudo que era diferente, ousado, misterioso. Ela que amava amar... O amor quer-se lento, demorado. É por isso que, para ela, é tão difícil. Apaixona-se por tudo à primeira-vista e quando dá conta, o amor tem lhe passado ao lado.

Escrevo

Escrevo por não saber mais o que fazer. Escrevo por não saber o que dizer, o que pensar, o que sentir. Escrevo para me entender, perceber o que vai dentro deste ser – muitas vezes desconhecido. Escrevo por diversão, muitas vezes, aspirando libertação.

O dia em que ouvi o vento

 O rio nada para cima. Será um presságio que o mundo se vira ao contrário? Segue no colo do vento, arrastado por uma corrente desejada. As ervas e as copas das árvores, lá de cima, dançam em tom coordenado. O vento é a alma da Terra, a consciência eterna de todas as coisas e de todos os seres. Trás consigo os antepassados e os posfuturos que, sussurrando gentilmente ao ouvido, atravessam o ser, num arrepio bem-vindo. Conta histórias e profecias, mas quem o entende além das folhas? Acho que, algures no tempo, desaprendemos a ouvir o vento. Às vezes ouço-o gritar, a plenos pulmões, numa tentativa desesperada de nos captar a atenção. Mas, em vez de ouvir, escondemo-nos a sete chaves na nossa profunda ignorância, amedrontados do que não conhecemos. Hoje, no dia em que o rio nada para cima, ouvi o vento numa melodia translúcida: "numa quietude inquieta, observa, absorve e questiona e, quando o mundo se virar ao contrário, não tenhas medo do desconhecido, envolve-o num abraço e ouve, só...