Mensagens

Coisa engraçada, as memórias

Coisa engraçada, as memórias. Fazem-nos sorrir e chorar, sentir emoções, recriar sensações. E às vezes nem são episódios, cenários coerentes, tampouco existentes. Às vezes são lugares, são cheiros, são pessoas. Às vezes são pensamentos de momentos que só aconteceram em ti. Impressões digitais de um passado que voou,  que não existe mais (ou que nunca realmente existiu). São produzidas nesta fábrica da mente, muitas vezes dormente, e algumas, desconfio, saem defeituosas. Serão, por isso, menos poderosas?

Não é meia-noite

Não é meia-noite, não é sombra ... Não é hora, nem é dia. É tempo perdido, sem compasso, sem direção. É tempo esquecido, sem memória, sem razão. O tempo não sabe para onde vai. Eu não sei onde quero chegar. Mas se formos juntos, Eu e o tempo  e o tempo que dermos a nós, Vamos chegar a onde o tempo nos levar.

Uma folha que toca o céu

No meu monte há uma árvore que toca o céu. É a árvore mais alta, da colina mais alta do meu monte.   No meu monte há um ramo que toca o céu.  É o ramo mais alto da árvore mais alta da colina mais alta do meu monte.   No meu monte há uma folha que toca o céu.  É a folha mais alta do ramo mais alto da árvore mais alta da colina mais alta do meu monte. Essa pequena folha, que agora toca o céu, está prestes a cair.  Vai voar por segundos no colo do vento. Mas, mesmo nesse auge de aventura, ela estará a cair.  Vamos, por isso, deixá-la voar e dançar com vento, sem lhe dizermos que cairá. Que chegará ao solo, que será decomposta e que, um dia, será o alimento de uma erva daninha. Deixe-mo-la sonhar, numa ignorância abençoada, enquanto ainda toca o céu.

A noite está fria

A noite está fria. Ainda assim, sento-me cá fora, na erva bravia. Hoje não há nuvens e posso admirar o céu estrelado. Sinto o corpo gelado. Mas está tudo bem, ainda o sinto. É um espetáculo delicioso. Frio cortante, estrelas brilhantes... As sombras da floresta que, ao longe, me enchem os ouvidos de murmúrios indecifráveis, de ecos selvagens. Há água a correr. Há cães a ladrar. A noite escura, mesmo sem lua, é minha amiga. É fiel conselheira. Tem olhar meigo e ternurento, trás alento no seu abraço. A noite está fria. Ainda assim, aquece-me a vontade, trás serenidade. Vou dormir com a felicidade segura, com a certeza absoluta de que amanhã também haverá noite. Boa noite, noite de hoje.

Metades de Kiwi

Cortei um kiwi ao meio e comi a primeira metade. Foi festa de frescura e doçura na minha boca. Precipitei-me para a segunda parte e, à primeira colherada, veio a surpresa: tinha outro gosto, sabia diferente. Não era melhor nem pior, apenas diferente. Mais ácida, menos suave. Mas eu, que até prefiro kiwis verdes, gostei-lhe do gosto. Enquanto comia aquela agradável amargura, questionei-me como poderiam duas partes de um todo saberem tão diferentes. Não tentei encontrar uma resposta, mas desejei ser aquele kiwi. Espero que eu, como um todo, também tenha metades, terços e quartos, recantos e pedaços que saibam diferente.

No final da rua

No final da rua, na pedra escura, esperava   a menina de face rosada e lábios de tinto. Os olhos de longe eram labirinto de sonhos e de sofrimento. De fogo e atrevimento. No final da rua, na pedra escura, sonhava   que amava, sonhava que a queriam. (Talvez estivesse   errado, talvez apenas quisesse ver o meu ser   espelhado) No final da rua, na pedra escura, um carro parou e a menina entrou. Não tentei adivinhar   para onde ia. Não esperei   que pudesse voltar. Segui o caminho, e quando cheguei ao   fim da rua, olhei para a pedra escura que me suportava. Percebi que   aquela pedra era tudo que realmente importava.  

Meditação

Esvaziar a mente é um feito. Uma façanha difícil de alcançar. Se tento meditar, começo a divagar.  Não tenho controlo sobre os meus pensamentos. Rapidamente chegam os lamentos, invasores sem consentimento. Eu respiro e tento ver a respiração. 1,2, inspira e expira; 3,4 amanhã é outro dia; 5,6 queria escrever poesia; 7,8 lá se foi a concentração, perdi-me na questão.