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Presa numa rede de ideias

Presa numa rede de ideias, Só me saem coisas feias. Não consigo ver além. Não consigo ser alguém Mais do já sou. Maior do que eu, Melhor do que serei. É um jogo viciado, O dado foi lançado. Sou profeta de uma fortuna Desventurada, Em que a descrença Torna-se uma sentença.

A insanidade é uma amiga

Uma mulher sã, Perdida e esquecida. Deixada num mundo avariado, embriagado de uma toxina citadina. A rotina viciante. A sinfonia alucinante. Ela transforma-se e deforma-se. A estupidez envolve a lucidez. Dá vez à loucura momentânea, À demência instantânea. Quem sou eu para julgar? Quem és para culpar? Numa sociedade partida, A insanidade é uma amiga.

Poesia d'algibeira

Poesia d'algibeira Escrita e cantada Sob uma brisa ligeira. Raios de luz Espreitam e deleitam Por entre nuvens Carregadas, cinzentas e pesadas. Tempo de possibilidade: Onde a tempestade é tão real Como a bonança primaveril. A chuva, o sol, o vento, Um arco-íris de felicidade. O despertar da vida, O respirar da saudade. As folhas dançam, Soltando gotas de magia. Um botão cresce, Floresce, num berma esquecida. É tempo. É tempo de renascer, É tempo de viver.

Névoa

A névoa distante Que se aproxima, Aprochega, fulminante. E o silêncio Ensurdecedor Dá asos à voz Feita d'amor. Quem és tu?   Quem sou eu? É tudo amargo Em teu redor. A lentidão Em palavras declamadas. A imensidão De silabas aglomeradas. Extasiada… Depois do tudo Vem o ser nada. Como é possível Sentir o mundo E o intangível? Estas palavras Cor-de-burro, São sentinelas Cor-de-musgo. Quem és tu Quando eu não sou? Quem sou eu Quando não estou? Faço rimas absurdas. Digito ideias sem sentido… Crio realidades fictícias Num mundo Onde a verdade É uma mentira.

XLII

Quero ser tudo, Vivo no futuro. Acabo a ser nada, Numa vida passada. Se conseguisse parar, Deixar de pensar, Seria feliz? Se voltasse no tempo, E vivesse o momento, Faria o que fiz? Perguntas desnecessárias, Ideias cansadas.

Dois copos de tinto

Dois copos de tinto cintilam, oscilam, até que colidem. Dois corpos de absinto atraem, contraem, até que vacilam. Não há mais nada a fazer. Não há nada a dizer. Segura   a frágil figura. Larga tal vida amarga. Insanidade mental, intensidade carnal. Deixa sair, deixa sentir. Mas… Não ames além do amor que tens pelo teu interior. Nunca te esqueças tu, és a única que vai te segurar. Quem mais que o teu reflexo estará disposto a t’amar? Ninguém que te veja a alma é capaz de compreender tal coisa escurecida, contorcida, entorpecida. É impossível saber que um sorriso radioso espelha este pequeno demónio silencioso.

Neurónios danados

Devia dormir, parar de sentir. Mas não consigo calar aquela voz infernal, que não sabe ir embora. Hiper-atividade cerebral oscila, vacila,   navega entre o que já foi e o “agora”. É hora   de apagar. Neurónios danados, que na hora de descansar ficam todos excitados. E eu viro neurótica, Rebolando, bufando… (E depois há quem se queixe que me apeteça gritar.) Não dá para deixar de pensar. Não consigo não imaginar   “ses”: Se fizesse, se não tivesse feito. Se quisesse, se houvesse efeito. Raio de possibilidades, um mundo de probabilidades. Como posso fazer tudo, acabo por não fazer nada.