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Poesia d'algibeira

Poesia d'algibeira Escrita e cantada Sob uma brisa ligeira. Raios de luz Espreitam e deleitam Por entre nuvens Carregadas, cinzentas e pesadas. Tempo de possibilidade: Onde a tempestade é tão real Como a bonança primaveril. A chuva, o sol, o vento, Um arco-íris de felicidade. O despertar da vida, O respirar da saudade. As folhas dançam, Soltando gotas de magia. Um botão cresce, Floresce, num berma esquecida. É tempo. É tempo de renascer, É tempo de viver.

Névoa

A névoa distante Que se aproxima, Aprochega, fulminante. E o silêncio Ensurdecedor Dá asos à voz Feita d'amor. Quem és tu?   Quem sou eu? É tudo amargo Em teu redor. A lentidão Em palavras declamadas. A imensidão De silabas aglomeradas. Extasiada… Depois do tudo Vem o ser nada. Como é possível Sentir o mundo E o intangível? Estas palavras Cor-de-burro, São sentinelas Cor-de-musgo. Quem és tu Quando eu não sou? Quem sou eu Quando não estou? Faço rimas absurdas. Digito ideias sem sentido… Crio realidades fictícias Num mundo Onde a verdade É uma mentira.

XLII

Quero ser tudo, Vivo no futuro. Acabo a ser nada, Numa vida passada. Se conseguisse parar, Deixar de pensar, Seria feliz? Se voltasse no tempo, E vivesse o momento, Faria o que fiz? Perguntas desnecessárias, Ideias cansadas.

Dois copos de tinto

Dois copos de tinto cintilam, oscilam, até que colidem. Dois corpos de absinto atraem, contraem, até que vacilam. Não há mais nada a fazer. Não há nada a dizer. Segura   a frágil figura. Larga tal vida amarga. Insanidade mental, intensidade carnal. Deixa sair, deixa sentir. Mas… Não ames além do amor que tens pelo teu interior. Nunca te esqueças tu, és a única que vai te segurar. Quem mais que o teu reflexo estará disposto a t’amar? Ninguém que te veja a alma é capaz de compreender tal coisa escurecida, contorcida, entorpecida. É impossível saber que um sorriso radioso espelha este pequeno demónio silencioso.

Neurónios danados

Devia dormir, parar de sentir. Mas não consigo calar aquela voz infernal, que não sabe ir embora. Hiper-atividade cerebral oscila, vacila,   navega entre o que já foi e o “agora”. É hora   de apagar. Neurónios danados, que na hora de descansar ficam todos excitados. E eu viro neurótica, Rebolando, bufando… (E depois há quem se queixe que me apeteça gritar.) Não dá para deixar de pensar. Não consigo não imaginar   “ses”: Se fizesse, se não tivesse feito. Se quisesse, se houvesse efeito. Raio de possibilidades, um mundo de probabilidades. Como posso fazer tudo, acabo por não fazer nada.

Margarida de Alma Inquieta

Desconfio que tenha a alma estragada. Fui levada a querer que o prazo de validade destas coisas seria maior. 70 anos talvez… 90 a correr bem. Não encontro a data de expiração na embalagem, mas 30 anos parece-me aquém. Escrevi uma carta ao fornecedor a pedir reparação. Ou quem sabe uma substituição completa, e fica o problema resolvido. Uma nova vinha a calhar… Uma que nunca tivesse sofrido, que ainda fosse capaz de amar. É que esta, já a sinto desbotada, sem cor. Creio até que já tenha ganho bolor. Fungos nos lugares mais profundos, onde nem a felicidade momentânea, daquela instantânea, já pronta a usar, lhe consiga de tocar. Tornou-se nesta coisa obsoleta, de vontade incompleta. Nem faz, nem deixa fazer. Nem sente, nem deixa sentir. E eu é que me lixo. Que, por ter uma alma defeituosa, quase já não existo. Vivo neste estado apático, num ritmo sistemático. Sol ou chuva, dia ou noite. Tudo é indiferente,   ...

Palavras difíceis

Por favor ofereçam-me um dicionário. Preciso de vocabulário. Preciso de mais palavras. (E se as virar ao contrário?) Quero sílabas complicadas, E soar mais imponente. Quero brincar com as letras, Ser mais eloquente. Estou a ficar repetitiva, Usando as mesmas rimas. Sou refém das mesmas frases. Só exporto ideias primas. Parece que não há fases, Que não consigo crescer. O meu cerebro é circular, Volta sempre ao mesmo lugar. Quero sair desta prisão, Sou vítima da criação. Se criar uma vez, crio essa vez para sempre? Não aceito. Não aceito tal logro da mente. Vou ler o dicionário. Vou encontrar palavras escondidas. Vou às famílias misteriosas, Em páginas incompreendidas. (Afinal não somos apenas palavras difíceis?)