POREM, NO ENTUDO, CONTANTO
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A saia vermelha
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Ainda nem passou um mês e já está de volta, esta ânsia de sentir. De saia arregaçada e ventre revolto, mergulho os pés - talvez a essência - em água doce. A saia. É apropriada ao momento: vermelha cor-de-sangue manchada de pequenas flores brancas. Passa uma brisa pelo corpo que me arrepia os braços. A caneta também. A página vira, dando a entender, de forma subtil, que é hora de seguir. Ainda assim, continuo aqui. Levantar-me significa encarar a pergunta: para onde quero ir?
tédio desenhado
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Que parvoíce, desenhar... Que parvoíce ainda maior desenhar espelhado. A esquerda está à direita e os ângulos todos trocados. O mundo está virado ao contrário! As palavras também. Que se foda a realidade! Que aborrecido, desenhar o que já existe... Ainda mais chato é pensar em como a sua existência existe. (São as palavras que me salvam de mim)
A menina que não sabia amar
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A menina que não sabia amar, via corações em todo o lado. Apaixonava-se pelo céu, sempre que olhava para ele. Apaixonava-se tão intensamente, tão rapidamente, que ninguém acreditava que era amor. Um dia, ela também deixou de acreditar. Se calhar nunca tinha, de facto, amado. Parecia-lhe uma ideia absurda: ela que amava tudo que era diferente, ousado, misterioso. Ela que amava amar... O amor quer-se lento, demorado. É por isso que, para ela, é tão difícil. Apaixona-se por tudo à primeira-vista e quando dá conta, o amor tem lhe passado ao lado.
O dia em que ouvi o vento
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O rio nada para cima. Será um presságio que o mundo se vira ao contrário? Segue no colo do vento, arrastado por uma corrente desejada. As ervas e as copas das árvores, lá de cima, dançam em tom coordenado. O vento é a alma da Terra, a consciência eterna de todas as coisas e de todos os seres. Trás consigo os antepassados e os posfuturos que, sussurrando gentilmente ao ouvido, atravessam o ser, num arrepio bem-vindo. Conta histórias e profecias, mas quem o entende além das folhas? Acho que, algures no tempo, desaprendemos a ouvir o vento. Às vezes ouço-o gritar, a plenos pulmões, numa tentativa desesperada de nos captar a atenção. Mas, em vez de ouvir, escondemo-nos a sete chaves na nossa profunda ignorância, amedrontados do que não conhecemos. Hoje, no dia em que o rio nada para cima, ouvi o vento numa melodia translúcida: "numa quietude inquieta, observa, absorve e questiona e, quando o mundo se virar ao contrário, não tenhas medo do desconhecido, envolve-o num abraço e ouve, só...
No dia em que o deixaste cair
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Emprestei-te um pedacinho do meu coração e tu deixaste-o cair. Felizmente, não se partiu - era um pedacinho leve e a gravidade não teve grande efeito. Também eu sou desastrada, por isso compreendi. Às vazes as coisas escorregam, escapam-se entre os dedos e os nossos reflexos, entorpecidos por fatores externos (às vezes internos) não dão conta do recado. Ainda assim, assustei-me perante a possibilidade de ver aquele pequeno pedacinho de mim estilhaçado no chão. Achei melhor pedir-to de volta: talvez para o guardar numa gaveta segura; talvez para o entregar a alguém com as mãos mais firmes, com uma reação mais apurada. Não me magoou que o deixasses cair, mas fiquei triste, um tanto desiludida, por to pedir. Sempre acreditei que mo devolvesses num ato memorável de uma peça extraordinária. Tive que aceitar a mediocridade e não me lembro de nada mais triste do que o ordinário. Acredito que continues a ser um semi-deus - afinal não é a tristeza de uma pequena rapariga que tem o poder de muda...