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Perdoa-me, Felicidade

Quando a Felicidade passou. Foi-se embora, levada por uma onda sonora. Vai inundar outra existência. É que, como todas as coisas, (Porque é isso que ela é, uma coisa, Um objeto concreto.  Quem diz o contrário, é porque nunca a viu. Eu já a vi. E se a vejo é porque é.) a Felicidade não consegue estar ao mesmo tempo, em todo o lado. Quando está por aqui, esqueço-me dela. Mas se vai embora, consigo vê-la ao longe, noutra vida. E logo me arrependo de não lhe ter dado a devida atenção. É o que dá, não reparar nas coisas importantes. Estava tão concentrada em trivialidades (como o que fazer amanhã), que me esqueci de lhe dar o melhor de mim. Ela dá-me sempre o melhor de si. Espero que não a tenha magoado. Espero que volte em breve. Tenho medo que um dia se canse e que não queira voltar. Espero que esse dia não seja hoje. Perdoa-me, Felicidade.

A ausência trouxe incoerência

A ausência trouxe incoerência. Sinto-me só. E que adianta rodear-me de gente, se nenhuma gente és tu? Falta poesia, Uma música a passar. Ficou tudo quieto, distante e constante. E as casas e as ruas, as árvores e o céu, levam-me no tempo, de volta ao que já foi. Quando mudar, e mudar de casas e de ruas e de árvores e de céu, vou voltar a ouvir uma música. Uma música diferente. Mas a nossa vai continuar a tocar, algures nestes recantos. E se um dia voltarmos, o tempo vai voltar connosco.

Vem aí a chuva

Vem aí a chuva. E trás os trovões. Tenho saudades da tempestade, Tenho saudades de ti. E ao ouvi-la, Ao sentir a sua força, Questiono-me da minha. Na impossibilidade de dizer, fico a pensar no que diria. Eu quero parar. Destruir esta sensação. Mas eu não sou tempestade, Ou tampouco um trovão. A minha vontade Não é forte o bastante Para parar a saudade.

O tempo

O tempo, hoje veio lento. Consigo tocá-lo, e consigo ouvi-lo: tic-tac, tic-tac. Segundos sem pressa que passam por mim. Vêm disfarçados, escondidos entre chilreares e brisas ou movimentos preguiçosos. Ainda assim, sinto-os. Sinto-os a ir na direção em que o tempo tem de ir. Há quem diga que é para a frente. Há quem ache que vai para o futuro. Eu não suponho, não assumo o seu destino. Só o tempo sabe para onde o tempo tem de ir. A mim resta-me vê-lo passar, nos dias em que me deixa... Há dias que corre, que decide fugir. Não o consigo tocar, e por mais que o queira agarrar, já passou. Ontem foi um desses dias. Ontem não o vi passar.

O Sol foi embora

O Sol foi embora. E as nuvens no horizonte capturam a última luz do dia. Ainda não vejo a Lua, mas espero que não se atrase. Há noites em que não aparece (suponho que fique a dormir....) Mas agora ainda não é noite a já não é dia. É a hora de ninguém, sem guia ou vigia. É uma hora bonita, é uma hora perigosa. Não é nada, mas é tudo. É um estado difuso e confuso entre o ser uma coisa e depois ser outra. É a hora de mudar. E como não é definida, não tem limites nem chefia, é a hora da liberdade, da rebeldia, da ousadia. O Sol foi embora e a Lua, a Lua ainda não chegou.

Gotas de sal

Gotas de sal Enchem o ar, Cheiram a força Sabem a mar. Eu queria ser como a água, Como a água do mar, Não ter forma nem sonhos E ser capaz de voar. Voar com o vento, Voar pelo ar, Correr pelo mundo Sem medo de errar. Não sei porque voa a água. Ainda bem que o faz. Que refresque a terra, que nos encha de paz.

Presa numa rede de ideias

Presa numa rede de ideias, Só me saem coisas feias. Não consigo ver além. Não consigo ser alguém Mais do já sou. Maior do que eu, Melhor do que serei. É um jogo viciado, O dado foi lançado. Sou profeta de uma fortuna Desventurada, Em que a descrença Torna-se uma sentença.